chalāre

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Nalgum outro momento calado, daqueles em que só se pode ouvir os estalos dos móveis no frio, escrevi numa conta de luz as palavras: furor e delicadeza. Pensava usar mais tarde, qualquer dia – qualquer escrito. Cá estão, no meio do silêncio dos humanos, fora os carros e os portões, espiando de canto na beira da mesa.

Quando alguém diz que ama está em pleno estado de fúria-frágil – expressão gêmea – sabendo que no futuro, seja qual for, vai gritar ou bater forte a porta do carro ou jogar o prato de comida no chão ou esmurrar a vidraça. Já que somos os donos do furor, aguentamos qualquer coisa? Aguentamos muito, mas não saímos ilesos. Seguimos na qualidade de quase-ódio, semi-cólera, andando com as mãos abanando e curtindo posts um do outro. Como se cada curtida fosse um carinho sem risada, aqueles abraços de longe que a gente dá no nosso chefe. Como se cada curtida fosse também um abraço apertado de quem não pode estar perto, daí fica ali piscando de um olho só, tendo a tela de véu.

E o silêncio ali, debaixo da cama, sentado na janela – esperando – grávido de som. Só o arrastar dos chinelos nos conforta, sabemos que há mais gente por perto, o copo se enchendo de água, o interruptor, a descarga, o mistério de qual panela foi aberta, a gaveta foi aberta para sair uma colher ou uma faca? Mesmo calados falamos, som e silêncio são um par.

Sabemos que tudo é mágica, ou mágico, basta existir e pronto. O casal de rolinhas namorando no telhadinho da cozinha, as sombras mudando de parede com março indo e o abril despedaçando. Os cacos são meus e estão guardados aqui no bolso, aguardam cafuné. Todo mundo quer cafuné, todo mundo quer existir, se manter flutuando no mundo (que aliás também está flutuando), todo mundo quer falar. No fim das contas o silêncio é o sintoma* do furor e delicadeza.

*a palavra sintoma em grego significa exatamente “coincidência”.

(escrevi isso ouvindo: Esmerine – Snow day for Lhasa)

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