Prólogo – 001

PROlo

Agora é domingo, cinco de fevereiro de 2023, estou num canteiro de obras caminhando entre as ferramentas dos pedreiros que almoçam com suas famílias, ouço um caminhão na esquina e repenso o que fiz, vi e senti como um álbum fotográfico da missão que acabo de cumprir.

Toda noite após desarrumar a cama vinha a imagem do PRIMO indo embora. Não sei se o lençol subindo rápido e depois descendo em câmera lenta ou se o meu corpo caindo na cama, qualquer queda parecia ser a dele. Qualquer seta apontada para o chão indicava a real velocidade que seu peso ganhou. Tenho percebido estes pesadelos acordado, sensações de voar na infância agora profundas lanternas iluminadas e adesivadas com setas. Fora de foco toda mancha é ameaça.

Solidão não é uma obrigação de estar só. Ainda estou aqui, só, e ele comigo. Uma foto para o instagram e duas para imprimir depois. Não me lembrava de ser tão alto da primeira vez, fones de ouvido, na mochila um embalixo com três latas spray-me preto fosco, camiseta reserva, pacote de biscoito água e sal, foto da FUSA abraçada com PRIMO, a corda de nó e uma garrafa de água. No prédio duas escadas de pedra levam para a área das lojas, a terceira porta à direita leva ao almoxarifado e a escada de madeira, o duto do elevador, vinte andares no escuro e no silêncio só as bolinhas sambando dentro das latas, outra escada e a lembrança da voz dele – que merda apertada, preciso emagrecer – dentro da tela de led: fios, cabos e um zumbido. Faltam três horas para anoitecer, durmo.

a lágrima de um homem vai cair.

Dizer que o pixo é ruim é como dizer que o trânsito é ruim, ou a saúde do país é ruim, ou que a violência doméstica precisa acabar: só uns cú de burro de dedo nervoso no facebook e jaco de cetim dizem que é ruim algo cuja inexistência é inviável. Ou que o pixo será respeitado como arte quando já não for crime, se quando não for crime já não será pixo. Ou se fosse bom faziam durante o dia, DIURNO mandava um pente de pixo na hora do almoço: escrevia “DIURNO” em porta de banco do centro às duas da tarde, da grife PIMG que nem existe mais, parou depois que a filha nasceu e hoje é o que? Vigilante do Itaú. Deve ficar imaginando aqueles caixas eletrônicos cheios de tags, ponto cinquenta numa mão e a lata na outra, bixo loco.

Mas então lá debaixo não pensamos em nada disso, olha pra cima e vê os espaços vazios esperando por nós, voamos sem vento, na companhia dos sussurros dos amigos: põe o pé ali ó. Um mundo flutuante de tinta e cimento, orgulho e preconceito, encharcados de suor pelos abdominais noturnos nas marquises. Contorno e meço com a mão livre e então o agudo tsssss tsss das formas, letras e mensagens impressas entre os buracos de morar.

Daí a nova paixão dos garotos espalhados por aí que nos recebem com gritos chapa quente de abrir sorrisos. Das multidões desatentas que encostam nas paredes e nos pontos de ônibus, chegam em casa condenando o dia incompleto, que estatelou o fim da alegria nos subúrbios, que vão sair amanhã sem café e, feito anel de um número a menos, espremendo os cotovelos sem saber onde. A comunhão dos meninos que vem pedir, com as mãos cheias de moedas, pra eu vender uma das minhas latas ou pra assinar no caderno que a prefeitura entregou e mais tarde mostrar para os colegar de escola. Qualquer bom dia nosso é comício repetido – conta de novo como você subiu no Acaiaca? – como você desceu do Maletta? – se vestem como podem e mesmo assim abaixam um pouco mais a calça, inventam tênis de papel, moletons do avesso para ficarem próximos de nossas roupas. E as esquinas do centro da cidade vendem coisas parecidas, os camelôs estão de volta, o nicho do pixo e a estética urbana de uma Belo Horizonte cheia de mágoa e tinta. O prefeito Wallter e seu hálito gás-de-esgoto na tv exibindo suprema pureza que só os chineses ignoram. A apoteose dos motoristas e seus carros importados grandes com dois tipos de buzinas, uma com volume mais baixo exclusiva para ciclistas e pedestres, buscam ordem enquanto assistem lutas de mma na tela do painel. Leilões de tudo o que você puder imaginar, de uma cueca com o certificado que o Michel Temer usou em sua posse como presidente em exercício em 2016 até uma telha da tragédia de Mariana – MG em 2015, tudo é motivo para fazer e desfazer dinheiro aqui. O próprio PRIMO vivia fugindo das emissoras de tv, pelo fato de seu pai, doze anos de polícia, ter sido um dos homens que cometeram um estupro na zona oeste de Belo Horizonte em 2019. PRIMO dizia que não sabia do destino de seu pai, só o conhecia por foto e não podia ajudar em nada. No fundo sabia que o pai tinha sido morto pelo tio, mas o assunto não merecia audiência televisiva para gerar lucro. Aliás, algo próximo do que o campeonato mundial de cubo mágico gera durante a transmissão mundial.

Andamos, soprados pelo vento e a poeira de rua batendo na cara, muito para conseguir os pincéis. Os dois locais mais baratos para se comprar latas que ficam abertos vinte e quatro horas: Angular Acabamentos e ObraCerta. É muita pernada para preencher paredes, já fiz o mesmo trajeto do ônibus do barreiro até o centro para ter distribuído tags quando fosse trabalhar. Cada parada de ônibus um sorriso de canto. Sobe no ombro, agarra a grade, puxa o de baixo pelos pés, sobe no ombro, agarra a grade, puxa o de baixo pelos pés, sobe no ombro, agarra a grade, puxa o de baixo pelos pés, até que tudo paira: a neblina, os carros, o medo e a noite ficam parados, até que tudo esteja no alto, diante de um panorama público – nosso tempo no oitavo andar.

Onde é que estava o vigilante que disse que empurrava. Ele disse que se achasse alguém empurrava, já teria empurrado a essa altura, mas ficou sentado pensando que a sala vazia significava um prédio inteiro vago. A luz da tv chegava aos pés e fazia sombra na lata, e a gente esperando um estalo de móvel para caminhar. A janela quarenta por quarenta, o basculante quebrado e a prateleira torta cheia de processos. O pé cabe em muitos lugares, toda verruga no concreto é degrau. Ficava olhando para o mosquito, MOSQUITO, vontade danada de dar tapa. E o estalo? O pixo é uma forma de meditação que consiste em se manter ocupado quando não se pode fazer nada.

Tem quem passa por isso e pronto, só fica mesmo a lembrança do lunfardo periférico. Isso de trocar as sílabas ou falar de trás pra frente: xar-pi, ta-la, be-gam, ro-mu, bir-su, conha-ma, tura-via, li-cia-po, ir-ca, go-ri-pe. Assim nos protegemos nosso código está do shopping à igreja, o inimigo pode ser um parente consanguíneo no fim do túnel. Tudo suspeito na visão da janela da viatura. Aproximação, abordagem e os bicos do spray escondidos. Se te pegam com a lata sem o bico do spray te batem e depois seguem seu rumo, mas se acham o bico te esculacham (fala baixo porra). Sair da loja e já jogar o bico fora, com uma lata na mochila o caminho para casa pode ser o último caminho, com o PERALVA foi assim. Uma morte por causa de uma lata que nunca foi usada. Todo policial tem passagem pela polícia. Não adianta falar devagar, senhor, desculpa senhor. Na dúvida chega em casa com o rosto fosco.

a lágrima de um homem vai cair.

Fiquei sozinho durante três horas inteiras. Não vi o vigilante e ninguém me notou. Fiquei sentado no chão mais alto da torre da igreja com o pensamento em PRIMO, na vez em que aqui subimos e não conseguimos o pixo. Problemas que não se resolvem, aliás nenhum se resolve quando a caída é última. Posso dizer que preciso desse momento, solo contra o solo, compromisso inventado pelo destino de um amigo, encruzilhada daqui de cima é círculo – a quem nunca pensa pra onde ir depois de ver alguém atravessar o chão. Qual a hora certa de dizer e ouvir “adeus”? Quando lá do alto sua voz cantava: “vem, chega cedo amor, todo dia é dia de saudade, na realidade amor, o mundo aqui é mais bonito, tem coisa que só sai da gente por escrito.”. No decorrer desse dia até a hora de dormir tive milhares de lembranças dele: do abraço com cheiro de tinta à queda e reconhecer o corpo no IML. Este era o meu reencontro com ele, através do que mais amamos, escrever nossos nomes o mais alto possível. As tvs ligadas no outro prédio, não há nada aqui em cima além de mim. Cansei de ouvir que “pixador não para nunca mas dá um tempo”, e esta é a última vez que pixo. Eu começo a sentir que os limites das minhas escolhas até o dia de hoje estão se desmanchando. Não é uma opção, a frase foi espalhada cumpriu sua função, o que aprendi com ela, PRIMO e com o pixo precisava de outro suporte, um registro em papel? Minha letra perdida fora do muro, num lugar que não cicatriza direito. Quem sabe? Tudo aqui aponta para alguma coisa, a lata para a parede, meus olhos para a frase e você? Está disposto a desistir do que acredita?

 

Anúncios

chalāre

Lomo_Yesterday-Reclaimed-Film-Reels-1024x682

Nalgum outro momento calado, daqueles em que só se pode ouvir os estalos dos móveis no frio, escrevi numa conta de luz as palavras: furor e delicadeza. Pensava usar mais tarde, qualquer dia – qualquer escrito. Cá estão, no meio do silêncio dos humanos, fora os carros e os portões, espiando de canto na beira da mesa.

Quando alguém diz que ama está em pleno estado de fúria-frágil – expressão gêmea – sabendo que no futuro, seja qual for, vai gritar ou bater forte a porta do carro ou jogar o prato de comida no chão ou esmurrar a vidraça. Já que somos os donos do furor, aguentamos qualquer coisa? Aguentamos muito, mas não saímos ilesos. Seguimos na qualidade de quase-ódio, semi-cólera, andando com as mãos abanando e curtindo posts um do outro. Como se cada curtida fosse um carinho sem risada, aqueles abraços de longe que a gente dá no nosso chefe. Como se cada curtida fosse também um abraço apertado de quem não pode estar perto, daí fica ali piscando de um olho só, tendo a tela de véu.

E o silêncio ali, debaixo da cama, sentado na janela – esperando – grávido de som. Só o arrastar dos chinelos nos conforta, sabemos que há mais gente por perto, o copo se enchendo de água, o interruptor, a descarga, o mistério de qual panela foi aberta, a gaveta foi aberta para sair uma colher ou uma faca? Mesmo calados falamos, som e silêncio são um par.

Sabemos que tudo é mágica, ou mágico, basta existir e pronto. O casal de rolinhas namorando no telhadinho da cozinha, as sombras mudando de parede com março indo e o abril despedaçando. Os cacos são meus e estão guardados aqui no bolso, aguardam cafuné. Todo mundo quer cafuné, todo mundo quer existir, se manter flutuando no mundo (que aliás também está flutuando), todo mundo quer falar. No fim das contas o silêncio é o sintoma* do furor e delicadeza.

*a palavra sintoma em grego significa exatamente “coincidência”.

(escrevi isso ouvindo: Esmerine – Snow day for Lhasa)

Daí me aparece

Sua mensagem foi enviada. Descarta os pés e desaprende o correr. Fico pela casa vazia, admirando os mosquitos cor de brasa fazendo alavancas no tempo. Qualquer coisa tô aqui, tá? Agradeço e recuso. Quando você propõe algo mais próximo, o que ele diz? Minha caixa de mensagens está cheia de sorrisos dele. Quem sabe um convite pra sair? Ele também não sai muito de casa. Seria ótimo ter um abraço demorado agora.

Fico fazendo tranças no fio do fone, esperando algum sorriso maior. Ao menos um “boo”, sabe? Uma bandeja de escritos lindos, daí seríamos gêmeos. Fábrica-aparência. Ele vai achar graça disso tudo. Do jeito que disse, não duvido mesmo. Precisa é de um empurrão e de um café fresquinho.

Nova mensagem recebida. Sofrendo as penalidades por menos ser mais. Agora não posso, estou fazendo sentido. Meus dedos estão gritando os seus cabelos. Permitido abraçar. Ele parece Rohmer, mas com ares de Poovey. Tá louca? Sussurros-palmas. Sinceramente, ele não quer você, é apenas network, acredite. Acha mesmo isso? Existe uma blindagem que não percebeu ainda. Tem daqueles seus cigarros pretos aí? Tenho.

Sua mensagem foi enviada. Daí me aparece você, mandando mensagem e provocando sorrisos. Eu não posso controlar tudo, sou só isso mesmo, desse tamanho. As vontades vão aumentando e fico aqui lendo com cara de bobo, imaginando um futuro que não acontece.

Poema 13

13.

Centro e determino. Fixo e belisco. Daquele apertão que recomendou, não deu certo, doeu pouco. Força-palavra boba. Ainda resiste de recriar esse perfume. Tem um lenço? Não, não uso. Quando chora faz o que? Esfrego as mãos. Então essas marcas… Não, essas marcas são de nascença. Lembra daqueles dois cegos que ajudamos a entrar na igreja? Você ajudou, eu fiquei olhando e admirando seu cuidado. Não você ajudou também. Que tem eles? Você acha que eles eram cegos de nascença. Não sei, espero que sim, você mesmo disse que seria difícil perder a visão. Agora pra direita. E se aquele primeiro abraço que você não lembra voltar? Como assim voltar? Tinha muito barulho, tô perguntando se é possível que a gente se abraçe no meio de tanto barulho, acha? Acho que sim, eu apareço no barulho e gosto do seu. Achei um pedaço de papel toalha, serve? Serve. Não vai parar de chorar? Vou, só preciso daquela leveza que você recomendou, não está dando certo, pesou muito. Os mindinhos, tenta eles. Não, isso é para acalmar, eu preciso de vinho.

Poema 6

6.

Não faz mal. Algumas vontades só existem no papel, recebem outra medida de valor quando se lê. O marco e a marca sempre mudam de sentido – complexo definitivo. Disponibilidade – possibilidade. Escrever do mesmo jeito que se lê e se desvincular do espaço em que se escreve.

Sentado com o brilho da tela. Duas pessoas: uma em trânsito outra estática. Quase um túmulo de espuma. (está digitando)

“Conversa qualquer coisa comigo.”

Vem o cheiro de creme da mãe, fica rindo sozinha e disfarça alguma ocupação para não responder tão rápido. Duas ansiedades: “Saudade docê!” Vem o cheiro de café quebrando o creme da mãe. Dói o joelho, mas ela não vai comentar sobre isso, nem isso e muito menos sobre as carícias que queria. Insiste:

“Verdade?”

Parece mentira, mas não fala nada. Palmas de gente, coreografia para respiração.

“Saudade de ti também, sabe?”

Nenhuma conversa é pura, todo corpo quer fazer um pouco parte do outro, rasgar um pedaço, talvez não nesse caso – não faz mal. Cuidado-tanto.

“Haja roseira.”

Risadas sempre,  nem sempre só as nossas, mas sempre.

“Haja redoma de vidro.” Imaginou um abraço e novamente sorrindo apertou forte a mesa de madeira, impossível – quase um buraco – tentando se acalmar ouvindo Felicia Atkinson. Confunde os cheiros.

 “Para com isso, você me mata de rir.”

Divide um pouco o abraço impossível, flutua (B1. Winnicott) e quer ser gentil. Espalha-se na cadeira com os olhos fechados, perde um chinelo, fica escorregando o pé no piso frio. A música acaba. A procura pelo chinelo acaba. Abra o caderno: Eu acho as coisas bonitas, mesmo sabendo que de fato não são. Vira a página: Algumas conversas não podem existir. Deixa o caderno mais perto, quer espalhar essas frases – não quer saber o motivo – acha triste. Não responde o que deveria, inventa um telefonema. Ela acredita. (summer eyes)

Vem o cheiro do caderno aberto. Um novo conforto é esperado. Resolve

sentar direito, era um fantoche, a tela avisa um futuro. Era esse o futuro que esperava, não aconteceu o que previa. Um futuro pregado na cruz, é bonito mas não é verdade, chora diante da beleza e da impossibilidade.

“Um abraço possível.”

Era só isso o que queria em troca. Abraço-mantra. A conversa continua em segundo plano. Nada. (a noite que virou silêncio) Se despede com boa noite trocado por bjo e simplifica a esperança desenhando uma carinha de letras. Idealiza um segundo dialogo mentalmente, que poderia ser real não fosse tão tarde, não fosse tão bonito. Desejou o chá, foi educado, desejou mais depois. Lembrou que ‘o amor varre tudo’, mas não era em amor que pensava. Andou muito depois disso, andou pra conversar e pra ouvir conversas.  Só de olhar sabia que a preocupação vinha de uma palavra que fazia seu joelho mover mais rápido, abusou da palavra. Agora estava gritando pela rua, repetindo a palavra-escultura, o caminho-palavra.

Vem o cheiro de roupa limpa. Menos luz. Interessado em proximidades, mesmo que recluso naquela mesa de madeira. O caderno:

Me defendo do que não entendo. A procura de um meio para flutuar, ora, não se trata de um meio – você já o tinha naquela sexta-feira. Vou flutuar agora, e você? Fica tudo tão perto o tempo todo e nós ainda reclamamos da distância. A décima terceira (primeira) conversa. É bobagem, mas penso em detalhes: do sabor, da xícara e do aroma do chá misturado ao seu.

Logo abaixo escreve com tinta vermelha:

Que meleca!!!

Depois gosta de novo, mas deixa o que meleca lá, fazendo parte. Insisto, antes não se preocupava tanto com isso.

Um episódio.

Depois do almoço o patrão: você nunca fica com raiva ou triste? Você parece um monge, sempre sereno. Todos aguardando a resposta. Sorriu, pousou a mão esquerda no ombro direito do patrão: é sinceridade e cuidado, mas logo isso acaba.