Copo com a borda quebrada

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Pinheiros, São Paulo. Tive tempo resolvi ligar, dizer de uma loja que vende bonecas deficientes, algo, é isso mesmo estou com o cartão aqui. Imagino que sim, vou perguntar depois, já estou longe. Pelo que vi eles aceitam encomendas para todo Brasil. Rasurei a outra carta, erro menos na próxima. Não é a mesma coisa. (fim telefone) Reviro o que escrevo à mão: empurrar. Dia desses gritou com a parede por conta das cadeiras que não tinham sido empurradas junto da mesa, algo como ‘tantas pernas e nenhum braço de homem pode colocar essas cadeiras no lugar’. Regar as plantas a noite para a terra não cozinhar as raízes, aprender encadernação, bordado e massagem. Dar conselhos sobre roupas, futebol e música. Dizer minúcia. Acostumei dizer que meus detalhes são abandonados à medida que observo outros. Aprisiono o que vejo.

Depois chega a cerveja, lagoinhas embaçadas, pensa banca de jornal. Acende outro cigarro de palha, bebida faz a gente fumar mais. Repara só a mesa atrás de você. Que tem? Dá uma olhada. Pelos sapatos, onde será que compram esses sapatos? (queria usar roupa de idoso) blosa de tricô bege, gola azul da camisa social pra fora, calça social cinza, meia azul e esse sapato que não interessa a marca, não sei a marca.

Um domingo de sol numa praça em Pinheiros com esses quatro, e suas roupas, atrás da mesa. Prevejo prática. Enquanto olha os velhinhos como pediu, na mesa os copos esperam os lábios. Um deles cria desenho na sombra, (sei que o nome dele é Roberto porque assim que ela vê os velhinhos diz: que bonitinhos Roberto) Roberto põe reparo na borda do copo dela, um quebradinho pronto pra tingir venedo. Troca os copos de lugar, um garçom acha graça o outro escolta sério. Se vira sorrindo por conta da mesa de trás, brindam. Tem nuvem no dia, ar de miúdo desses que todo mundo gosta. Os da mesa de trás pedem café com leite, chega uma certa idade em que ficam muito evidentes as diferenças, poucos tem coragem de se misturar. Cancelo a Brahma e peço o mesmo que eles, o garçom escolta sério.

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Trinta e três

 

Três semanas depois foi morta com dois tiros nas costas enquanto lavava a louça. Disse que não entendia dessas coisas da lei, como suas amigas.

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Já estou cansada disso aqui, ninguém percebe como tudo neste lugar está um lixo. Não conseguem ajudar em nada, você por exemplo: porque não lava esse copo que acabou de usar. Que merda de casa. Eu saí e deixei a casa limpa, volto e encontro essa bosta. Nunca perceberam que deixo a vassoura e um pano no meio da casa como pedido de socorro?

Pedaço de cigarro dentro da xícara de café, torneira aberta, comida no chão, roupas na mesa de jantar, sabonete no chão, mijo em volta do vaso, música alta de madrugada, bíblia rasgada, sapato na sala, quebraram outro prato agora. (estímulo-filtro)

(escrevi isso ouvindo o barulho do bairro em dia de  futebol)

Na quinta chega carta

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Não escreveu uma palavra, nem leu uma página, nenhuma nota, batucada de caneta na mesa e só. Faltou o pagamento do mês, veio a cobrança da semana e apenas o copo d´água sorria naquela casa. Um punhado de lugares pra ir, cerveja cara, amigos baratos, ninguém acompanhando nada. Compaixão-abismo. “trago no peito” – “eu fico triste quando vejo alguém contente, tenho inveja dessa gente que não sabe o que é sofrer” – não permite que outra pessoa faça parte desse momento.

Sem alianças viu a alegria ir embora dizendo: se me chamar bem alto eu volto. – deixou ir. Tampouco chorava, ia gritar nada. Feito campanha publicitária, abriu a janela. Pagode, riso e perfume de feijão tropeiro. É céu limpo, é lua de bebum, é o fim do caminho. Na quinta chega carta, demora nada. Vento girando cadeira, comprar vinho ou cerveja?

Um filme, pensou viver num. Destino de baralho velho, quis mudar e melhorar seu mundo. Saudade-cicatriz, lá longe um ‘feliz 94’, acenou lento. Fechou a janela.

(escrevi isso ouvindo Sara não tem nome)

Caricatura constante

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Luciana Gimenez quer saber se está gorda. Pois é, foi isso que apareceu na minha tela, nem me queixei – não vou clicar nisso – mas cliquei. Era um video, grávido de um anúncio (ou um anúncio grávido de um video), a tela disputada a facadas. Piscaram mais anúncios, voltei para a pesquisa sobre rampas e inclinações obrigatórias – pensando escultura para escrita. Estou falando da tela, que lugar é esse (agoridade-reação)? Paulinho da Viola: “Pedaços de mim pelo mundo que dura ilusão só me desencontrei sem me achar.” O meu dizer de costas para o público – e você fechando a porta com força e diálogo. Essas pessoas precisam existir, essas que querem saber se estão bonitas, se estão gordas. Elas estão vivas, vivem assim – de certa forma nós também. Entre nós existe também esse modo de des/ser. Violência de verbo contra sua própria história.

(com licença, vamos para um rápido intervalo e já voltamos)
(estamos de volta e agora o assunto é perda de conquistas)

Ainda queria terminar meu raciocínio sobre a senhora que duvida de estar acima do peso.

(temos pouco tempo e muitos assuntos)

É exatamente isso, esse valor que aqui dão ao tempo. Isso nem é ruim, tem mesmo um valor importante, transforma o momento de quem está do outro lado. Como um decorador que pega lugar nenhum e faz dele outro, Bruno Giorgi lascando ponta de lápis. Eu não sou um amador, sei o valor que tenho e das pessoas não engessadas que me esperam falar sobre a tal residência artística para críticos de arte (e que você insiste ocultar). Me jogar num buraco da minha fala é possibilidade nula. Me oferecem tempo e produzem pausa.

(você consegue concluir agora)

Isso é um tempo morto, depois vai pro youtube e inaugura réplica (remorta) simples. Mesmo sem concluir prefiro silenciar.

(sobre a perda de conquistas? Não precisa ficar olhando pra câmera)

Você parece ser dessas pessoas que usam a expressão “boom” pra qualquer “poom” criativo, mas vamos lá. A conquista nunca é pura, dá pra ter essa dimensão pensando na Helene Hegeman irradiando prodígio e culpa. E perder conquistas, de fato é esse meu cotidiano, não é um ato feito nas melhores condições higiênicas da vida. Quando eu era ‘mai novo’ tinha dificuldade na fala, e, tinha obsessão por conversas. Os detalhes mais íntimos das conversas, salivação, respiração, essas coisas. Comecei a falar para testar esses detalhes em mim. Não projetava uma palavra sem apontar ou identificar repetições do que ouvi. Assim a primeira conquista que perdi, tão rápido, foi a de dominar a fala. Mas sei bem, está falando sobre dinheiro, pra você conquista é isso. Sou um leitor ruim, nunca li um livro seu, lamento até. Espalhei algum dinheiro que deve fazer sombra até hoje no centro da cidade. Perco agora o frescor dos meus defeitos, perder conquista é também uma potência. É tudo um jogo de significados, do mesmo modo que o seu tempo é raro, minha conquista tem origem medíocre. Se perde quando nasce. Faço falta atrás do olho do juiz. Nasci católico e vou morrer corrupto. Ainda tenho muito a perder, começando pelo tempo (já citado), influências e a cada dia perco uma, sentimento, força, jeito. As pessoas se ofendem demais com a perda…

(antes do terminar, considerações finais)

O esforço de quem passa um sábado ensolarado lavando carros num posto de combustível. Desculpa, me exaltei.

(escrevi isso ouvindo Lenine)

Esforço contínuo para preencher fraqueza

Peter-McFarlane
Circuit Sculpture por Peter McFarlane.

E esta noite, e este quarto agora claro. No chão, o nosso céu. A janela que dá pra rua à minha frente, aberta, duelando. Ele dizia que esqueceria, e nunca esqueceu. Sem nenhum tumulto ouvi tudo, coisa rara. Tirei a chave da bolsa, tive toda a cautela (do abismo) orgulhosa de suspirar baixinho até a grossa coberta. O ferro da janela trabalhado a medo oxidado não larga o meu braço. Não se apoquente, eu também conheço, eu também gravo a sua palavra. E se está dormindo agora no véu da angústia (regada confusão), ‘aqui és rio’. Corre em meu terreiro, cá chover na pálpebra, nuvem do teu aceno. E fico. Anoiteço contigo, nesta altura do mês. Não percebe e está em tudo, envelhecendo o olhar e a vigília. Estou aqui onde mora também, vincada, tua escuta.

(escrevi isso ouvindo Toy Dolls)

Curvex no terceiro olho

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Curvex no terceiro olho. O nome do blog era barulhista.txt, gostava desse nome também, era o estudo para o livro Roça (2013). Rema-rema, novas ideias e novos nomes surgem o tempo todo. A imagem do cabeçalho é um detalhe de uma arte do Eduardo Recife, espero que não fique muito bravo por eu ter roubado e, pra piorar, ainda escrevi por cima. Qualquer coisa depois eu mudo.

Curvex pretende ser um caderno de anotações com cheiro de romance ou um romance com cheiro de diário. Um recado na cozinha: duvido você lavar a louça hoje. No quarto: meu cabelo, está curto e ninguém comentou. A turma mais nova adora dizer isso: é uma mistura disso tudo mesmo, não é uma coisa só, são muitas influências. Pois bem, queria escrever como Alcione Araújo, Daniel Galera, Carol Bensimon ou Noemi Jaffe. (não tenho certeza se queria mesmo) Mas escrevo ao meu modo, o tanto que consigo e está tudo aqui, acima e abaixo.

Não lembro exatamente o motivo, mas quase todos os anos entre os meses março e abril eu repito o ritual: parar de fumar, essa é a terceira tentativa, e organizar meus escritos. Independente da causa fico feliz que isso aconteça, aliás que tal todo mês? Pensei nisso semana passada, quando no metrô uma senhora alertou uma garota que uma nota de 20 reais podia ser vista pelo desfiado da calça. A garota transferiu a nota para o bolso da frente e saiu de perto da senhora. Pensei: bela cena pra um texto. Agora tô aqui contando isso pra vocês fora do contexto ficcional, paciência.

E no fim Curvex vai virar um livro? Provavelmente, foi assim com Roça em 2013, mas não se trata de copiar o que está no blog e colar no formato livro. O blog serve apenas como estudo, pesquisa mesmo sabe? Oremos!

Agradeço muito sua visita, no plural agradeço de olho fechado.

(escrevi isso ouvindo The Shins)

O velho e o moço

Você falou com ele esses dias?
Não, e você?
Falei na quinta, estava chovendo e ele não estava muito bem.
Há tempo ele dizia estar triste, deprimido, essas coisas. O vizinho disse que nos últimos dias ficava uma música repetindo dentro de casa…
O velho e o moço dos Los Hermanos, todo mundo tá falando sobre isso.
Esquisito né?
Muito. Dizem também que ele tinha parado de fumar.
Isso é mais estranho ainda.
E você, ainda com aquele professor?
Que nada, ele falava demais.
Pois é, taí uma coisa que ele não fazia né?
Mais ou menos, uma vez ele ficou quase uma hora falando sobre Umberto Eco comigo.
Eram muitos carinhos sem sorrisos.
E muitos sorrisos sem sentido, lembra?
Lembro sim.
Olha essa foto.
Puxa, difícil conseguir uma foto assim, ele odiava fotografias.
Sim, ele não viu quando tiramos. Ele nunca viu essa foto.
Vai fazer falta.
Ele não gostaria que falássemos isso.
Ele não gostaria é de nada.

Todo mundo quer querer, as vontades simples ficam pulando na minha frente, mas não posso tudo isso. Não agora, num futuro, nada vai dar certo. Aguardo.