Prólogo – 001

PROlo

Agora é domingo, cinco de fevereiro de 2023, estou num canteiro de obras caminhando entre as ferramentas dos pedreiros que almoçam com suas famílias, ouço um caminhão na esquina e repenso o que fiz, vi e senti como um álbum fotográfico da missão que acabo de cumprir.

Toda noite após desarrumar a cama vinha a imagem do PRIMO indo embora. Não sei se o lençol subindo rápido e depois descendo em câmera lenta ou se o meu corpo caindo na cama, qualquer queda parecia ser a dele. Qualquer seta apontada para o chão indicava a real velocidade que seu peso ganhou. Tenho percebido estes pesadelos acordado, sensações de voar na infância agora profundas lanternas iluminadas e adesivadas com setas. Fora de foco toda mancha é ameaça.

Solidão não é uma obrigação de estar só. Ainda estou aqui, só, e ele comigo. Uma foto para o instagram e duas para imprimir depois. Não me lembrava de ser tão alto da primeira vez, fones de ouvido, na mochila um embalixo com três latas spray-me preto fosco, camiseta reserva, pacote de biscoito água e sal, foto da FUSA abraçada com PRIMO, a corda de nó e uma garrafa de água. No prédio duas escadas de pedra levam para a área das lojas, a terceira porta à direita leva ao almoxarifado e a escada de madeira, o duto do elevador, vinte andares no escuro e no silêncio só as bolinhas sambando dentro das latas, outra escada e a lembrança da voz dele – que merda apertada, preciso emagrecer – dentro da tela de led: fios, cabos e um zumbido. Faltam três horas para anoitecer, durmo.

a lágrima de um homem vai cair.

Dizer que o pixo é ruim é como dizer que o trânsito é ruim, ou a saúde do país é ruim, ou que a violência doméstica precisa acabar: só uns cú de burro de dedo nervoso no facebook e jaco de cetim dizem que é ruim algo cuja inexistência é inviável. Ou que o pixo será respeitado como arte quando já não for crime, se quando não for crime já não será pixo. Ou se fosse bom faziam durante o dia, DIURNO mandava um pente de pixo na hora do almoço: escrevia “DIURNO” em porta de banco do centro às duas da tarde, da grife PIMG que nem existe mais, parou depois que a filha nasceu e hoje é o que? Vigilante do Itaú. Deve ficar imaginando aqueles caixas eletrônicos cheios de tags, ponto cinquenta numa mão e a lata na outra, bixo loco.

Mas então lá debaixo não pensamos em nada disso, olha pra cima e vê os espaços vazios esperando por nós, voamos sem vento, na companhia dos sussurros dos amigos: põe o pé ali ó. Um mundo flutuante de tinta e cimento, orgulho e preconceito, encharcados de suor pelos abdominais noturnos nas marquises. Contorno e meço com a mão livre e então o agudo tsssss tsss das formas, letras e mensagens impressas entre os buracos de morar.

Daí a nova paixão dos garotos espalhados por aí que nos recebem com gritos chapa quente de abrir sorrisos. Das multidões desatentas que encostam nas paredes e nos pontos de ônibus, chegam em casa condenando o dia incompleto, que estatelou o fim da alegria nos subúrbios, que vão sair amanhã sem café e, feito anel de um número a menos, espremendo os cotovelos sem saber onde. A comunhão dos meninos que vem pedir, com as mãos cheias de moedas, pra eu vender uma das minhas latas ou pra assinar no caderno que a prefeitura entregou e mais tarde mostrar para os colegar de escola. Qualquer bom dia nosso é comício repetido – conta de novo como você subiu no Acaiaca? – como você desceu do Maletta? – se vestem como podem e mesmo assim abaixam um pouco mais a calça, inventam tênis de papel, moletons do avesso para ficarem próximos de nossas roupas. E as esquinas do centro da cidade vendem coisas parecidas, os camelôs estão de volta, o nicho do pixo e a estética urbana de uma Belo Horizonte cheia de mágoa e tinta. O prefeito Wallter e seu hálito gás-de-esgoto na tv exibindo suprema pureza que só os chineses ignoram. A apoteose dos motoristas e seus carros importados grandes com dois tipos de buzinas, uma com volume mais baixo exclusiva para ciclistas e pedestres, buscam ordem enquanto assistem lutas de mma na tela do painel. Leilões de tudo o que você puder imaginar, de uma cueca com o certificado que o Michel Temer usou em sua posse como presidente em exercício em 2016 até uma telha da tragédia de Mariana – MG em 2015, tudo é motivo para fazer e desfazer dinheiro aqui. O próprio PRIMO vivia fugindo das emissoras de tv, pelo fato de seu pai, doze anos de polícia, ter sido um dos homens que cometeram um estupro na zona oeste de Belo Horizonte em 2019. PRIMO dizia que não sabia do destino de seu pai, só o conhecia por foto e não podia ajudar em nada. No fundo sabia que o pai tinha sido morto pelo tio, mas o assunto não merecia audiência televisiva para gerar lucro. Aliás, algo próximo do que o campeonato mundial de cubo mágico gera durante a transmissão mundial.

Andamos, soprados pelo vento e a poeira de rua batendo na cara, muito para conseguir os pincéis. Os dois locais mais baratos para se comprar latas que ficam abertos vinte e quatro horas: Angular Acabamentos e ObraCerta. É muita pernada para preencher paredes, já fiz o mesmo trajeto do ônibus do barreiro até o centro para ter distribuído tags quando fosse trabalhar. Cada parada de ônibus um sorriso de canto. Sobe no ombro, agarra a grade, puxa o de baixo pelos pés, sobe no ombro, agarra a grade, puxa o de baixo pelos pés, sobe no ombro, agarra a grade, puxa o de baixo pelos pés, até que tudo paira: a neblina, os carros, o medo e a noite ficam parados, até que tudo esteja no alto, diante de um panorama público – nosso tempo no oitavo andar.

Onde é que estava o vigilante que disse que empurrava. Ele disse que se achasse alguém empurrava, já teria empurrado a essa altura, mas ficou sentado pensando que a sala vazia significava um prédio inteiro vago. A luz da tv chegava aos pés e fazia sombra na lata, e a gente esperando um estalo de móvel para caminhar. A janela quarenta por quarenta, o basculante quebrado e a prateleira torta cheia de processos. O pé cabe em muitos lugares, toda verruga no concreto é degrau. Ficava olhando para o mosquito, MOSQUITO, vontade danada de dar tapa. E o estalo? O pixo é uma forma de meditação que consiste em se manter ocupado quando não se pode fazer nada.

Tem quem passa por isso e pronto, só fica mesmo a lembrança do lunfardo periférico. Isso de trocar as sílabas ou falar de trás pra frente: xar-pi, ta-la, be-gam, ro-mu, bir-su, conha-ma, tura-via, li-cia-po, ir-ca, go-ri-pe. Assim nos protegemos nosso código está do shopping à igreja, o inimigo pode ser um parente consanguíneo no fim do túnel. Tudo suspeito na visão da janela da viatura. Aproximação, abordagem e os bicos do spray escondidos. Se te pegam com a lata sem o bico do spray te batem e depois seguem seu rumo, mas se acham o bico te esculacham (fala baixo porra). Sair da loja e já jogar o bico fora, com uma lata na mochila o caminho para casa pode ser o último caminho, com o PERALVA foi assim. Uma morte por causa de uma lata que nunca foi usada. Todo policial tem passagem pela polícia. Não adianta falar devagar, senhor, desculpa senhor. Na dúvida chega em casa com o rosto fosco.

a lágrima de um homem vai cair.

Fiquei sozinho durante três horas inteiras. Não vi o vigilante e ninguém me notou. Fiquei sentado no chão mais alto da torre da igreja com o pensamento em PRIMO, na vez em que aqui subimos e não conseguimos o pixo. Problemas que não se resolvem, aliás nenhum se resolve quando a caída é última. Posso dizer que preciso desse momento, solo contra o solo, compromisso inventado pelo destino de um amigo, encruzilhada daqui de cima é círculo – a quem nunca pensa pra onde ir depois de ver alguém atravessar o chão. Qual a hora certa de dizer e ouvir “adeus”? Quando lá do alto sua voz cantava: “vem, chega cedo amor, todo dia é dia de saudade, na realidade amor, o mundo aqui é mais bonito, tem coisa que só sai da gente por escrito.”. No decorrer desse dia até a hora de dormir tive milhares de lembranças dele: do abraço com cheiro de tinta à queda e reconhecer o corpo no IML. Este era o meu reencontro com ele, através do que mais amamos, escrever nossos nomes o mais alto possível. As tvs ligadas no outro prédio, não há nada aqui em cima além de mim. Cansei de ouvir que “pixador não para nunca mas dá um tempo”, e esta é a última vez que pixo. Eu começo a sentir que os limites das minhas escolhas até o dia de hoje estão se desmanchando. Não é uma opção, a frase foi espalhada cumpriu sua função, o que aprendi com ela, PRIMO e com o pixo precisava de outro suporte, um registro em papel? Minha letra perdida fora do muro, num lugar que não cicatriza direito. Quem sabe? Tudo aqui aponta para alguma coisa, a lata para a parede, meus olhos para a frase e você? Está disposto a desistir do que acredita?

 

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Nalgum outro momento calado, daqueles em que só se pode ouvir os estalos dos móveis no frio, escrevi numa conta de luz as palavras: furor e delicadeza. Pensava usar mais tarde, qualquer dia – qualquer escrito. Cá estão, no meio do silêncio dos humanos, fora os carros e os portões, espiando de canto na beira da mesa.

Quando alguém diz que ama está em pleno estado de fúria-frágil – expressão gêmea – sabendo que no futuro, seja qual for, vai gritar ou bater forte a porta do carro ou jogar o prato de comida no chão ou esmurrar a vidraça. Já que somos os donos do furor, aguentamos qualquer coisa? Aguentamos muito, mas não saímos ilesos. Seguimos na qualidade de quase-ódio, semi-cólera, andando com as mãos abanando e curtindo posts um do outro. Como se cada curtida fosse um carinho sem risada, aqueles abraços de longe que a gente dá no nosso chefe. Como se cada curtida fosse também um abraço apertado de quem não pode estar perto, daí fica ali piscando de um olho só, tendo a tela de véu.

E o silêncio ali, debaixo da cama, sentado na janela – esperando – grávido de som. Só o arrastar dos chinelos nos conforta, sabemos que há mais gente por perto, o copo se enchendo de água, o interruptor, a descarga, o mistério de qual panela foi aberta, a gaveta foi aberta para sair uma colher ou uma faca? Mesmo calados falamos, som e silêncio são um par.

Sabemos que tudo é mágica, ou mágico, basta existir e pronto. O casal de rolinhas namorando no telhadinho da cozinha, as sombras mudando de parede com março indo e o abril despedaçando. Os cacos são meus e estão guardados aqui no bolso, aguardam cafuné. Todo mundo quer cafuné, todo mundo quer existir, se manter flutuando no mundo (que aliás também está flutuando), todo mundo quer falar. No fim das contas o silêncio é o sintoma* do furor e delicadeza.

*a palavra sintoma em grego significa exatamente “coincidência”.

(escrevi isso ouvindo: Esmerine – Snow day for Lhasa)

Perdiz

Engano do dia, sem nome, filho de um operador de máquina e de uma costureira, nasceu sem muito saber até quando. Invisível aos amigos, descrente de amor, apesar de casado, além dos livros, acabou se arranjando como segurança da biblioteca pública de Belo Horizonte.

Sem time de preferência, ouvia os comentários atrás do balcão sobre raposa, galo e coelho. Uma edição de bolso na mão, guarnição de sua humildade, bilhete para qualquer terra. Infeliz como um gândula em zero a zero, servia atenção e bom dias. A elegância do uniforme passado a ferro às quatro da manhã.

Fascinado pelos ternos descidos de carros com motoristas, sofria pensando ter nascido para isso, a doçura possível dos motoristas e ternos. Resistia as lembranças do lodo nas paredes de casa, aos móveis doados pelo vizinho, incluindo uma cadeira com três pés e o desenho sem moldura. Aquele terno com motorista não tinha ciência sobre isso, nem mesmo a corda da descarga feita de restos do varal. Maldito terno, carro desgraçado.  Podia ver durante o almoço a parte alta da cidade, aguçava os lamentos e os sonhos. Como nos livros, a parte alta devia ter camas com lençol branco, bordado talvez, tapetes coloridos, tecidos finos nas paredes, lustres gigantes, cadeiras com quatro pés, grama no quintal, quem sabe até neve. Fantasiava conversas em voz baixa com mulheres e homens inteligentes, perfume de artista, banheiros com descarga de shopping, amigos invejáveis.

A mulher o recebia sorrindo. Fiz farofa com cenoura como você gosta. Imaginava camarões e ostras, sem nunca ter provado ambos. Garfo e faca em mãos, um encontrado num dos armários da biblioteca o outro esquecido pelo garçom numa festa de 15 anos. Esse frango parece perdiz. Você já comeu perdiz? Não, mas tem um livro que fala que a perdiz tem a carne muito próxima do frango em alguns pratos. Vou falar com Maria depois, outro dia ela reclamou que meu bife estava duro. Essas palavras o lembravam que não tinha muita coisa. Se achava feio, não era notado e ao mesmo tempo sabia ter nascido para ser bonito, para ser desejado.

Inacabado.

(escrevi ouvindo Siba)

Print Screen

Primeira coisa: este botão é o da partida, aqui estão as marchas (são quatro), não tem embreagem – na verdade é semiautomática, só precisa voltar o acelerador e pisar forte neste pedal – se passar acelerando vai ter que voltar aqui em breve para manutenção, o freio da frente no guidão e o de trás no pedal. Não posso te ajudar com muito mais. A loja parada para me ver ligando a moto, só aconteceu depois que saí para a rua. Veio a lembrança de um motoboy numa esquina ajustando os retrovisores, fiz igual. No reflexo todos os vendedores da loja de braços cruzados olhando o possível vexame da primeira moto e da primeira vez que dei a partida numa 50 cilindradas.

Cheguei em casa errei a direção e descobri que um veículo motorizado, seja de qual potência for, é uma máguina do tempo. Precisava aprender a pilotar, todas as noites foram aulas solitárias. Enquanto colava adesivos onde conseguia, imaginava uma forma de ouvir música na moto. Brinquedo-tempo em dois meses.

Não muito antes de tremer pelo centro da cidade, procurei me acalmar na travessia da avenida Amazonas com habilidosos imbecis automotivos. Freio da frente para diminuir a velocidade, o de trás ajuda depois. Estava no centro, pela primeira vez cheguei ao centro pelo caminho escolhido por mim, pela minha única direção. Toda vez que olhava pelo retrovisor, me perguntava como faria para olhar para frente e para eles ao mesmo tempo. Poucos quarteirões de onde fui assaltado buzinei como alerta para um senhor que vinha depressa demais.

Na esquina da avenida Afonso Pena com a rua da Bahia uma caneta caiu.(Pilot Super Grip 1.0 cor azul)Não sei de quem caiu. Brilhou no céu das árvores neste instante. Apertei os dois freios da e as buzinas soaram. Joguei na gola da camisa – fone de ouvido pendurado – acelerei, a fazer cócegas até a praça da liberdade.

Cartão da biblioteca pública, pode guardar sua mochila no armário por favor? Na volta do armário pedi um pedaço de papel para testar a caneta, um folheto de produtos para maquiagem, imitei a palavra: curvex. Escrever é sempre uma estreia. Funciona. Sim funciona, acabei de achar na rua. Dia de sorte então. Sorrisos. O segurança da biblioteca estava sempre lendo alguma coisa que não era livro, folheto de farmácia, bula, programas de lançamentos, livro não. Ao subir a escada vi ele escrevendo no mesmo folheto onde testei a caneta.

A fala, passos e memória, soltos e muito bem organizados a espera dos olhos, dos dedos – era folga do trabalho. Caneta no bolso da calça, certeza deslizando o indicador por cima. No outro rumo, acompanhando a prateleira de mais lidos do mês de junho, estão as mesas para leitura, quase todas com anotações no tampo de madeira. Entalhes gravados em momentos mínimos, diante de todo aquele estouro de livros bem organizados um título escrito com Bic na madeira: a descoberta do terceiro olho, Vera Stanley Alder. Eu olhava com atenção na esperança de ver algum prodígio poético na combinação das letrinhas. Essa inocência hoje amanhece um sorriso. Mas por trás da ansiosa inquietação havia algo grave e, por trás dessa gravidade, algo dramático que é menos fácil de identificar.

Entre uma leitura e outra encostava na janela, confundia o ruído da rua com o passar de páginas. Debaixo do vão da biblioteca, quatro pés, dois descalços e dois de pantufas sujas: tenho muito medo de passar por aquele caminho. Hoje, Deus vai me ajudar para que nada aconteça. Pega o saco debaixo do papelão pra mim. A ponta da caneta batendo na madeira, mancha sozinha e o escrito: medo do caminho em que nada vai acontecer. Minha contribuição para o poema coletivo. Tentei ouvir um pouco mais, o ônibus impediu, se foram os quatro pés.

Fone. Gostava de ouvir Tim Hecker enquanto andava pela biblioteca. Eu diminuia o volume quando via alguém se aproximava, para poder ouvir alguma conversa, e não era muito difícil isso acontecer – ao contrário do que se pensa, se fala bastante em bibliotecas. Naquela época eu passava de um livro para outro, sem abrir, procurando o título ou a lombada perfeita para o dia. Uma fuga sonora de passos, letras, música e algumas vozes no fundo. Aquela hora passando e eu sem livro nas mãos. Precisa de ajuda para algum título? Não, estou pesquisando sozinho, obrigado.

Era quase hora de ir para o trabalho, meu relógio biológico prevenia atrasos, mas hoje era folga por conta do meu aniversário. Trabalhava numa gráfica pequena que também vendia artigos de escritório, o básico, não daria para finalizar uma lista de material escolar de uma criança. O dono me deu escolha: uma cerveja após o trabalho com os outros dois funcionários por conta dele ou folga? E folga significava andar de moto, biblioteca, quem sabe uma visita a um antigo amigo. Os funcionários eram Santos e Kelly. Santos um arte finalista que devia ter quase quarenta anos, quase não saía de casa, adorava beber chá e ver os jogos da Associação Nacional de Basquete dos Estados Unidos, como ele mesmo dizia: ene-bê-á. Kelly era nossa supervisora, a pessoa mais nova da Gráfica Print Screen, deixou o RG cair no chão outro dia, nascida em 1991. Tinha um namorado com quem vivia terminando e frequentava as tumultuadas e hypes sobrelojas do edifício Maletta. Além deles e eu, o dono Santiago, mais ou menos 60 e poucos anos, sotaque argentino, tipógrafo dos anos 70 tentando sobreviver nos tempos do computador.

Sentei numa das mesas com dois livros e resolvi abrir o primeiro. Como estou abandonado agora que você voltou para as ruas. E o segundo. O ônibus geme suas janelas. A caneta na madeira: Como estou abandonado nesse ônibus, da janela as ruas gemem teu nome. Faço um xis sobre o escrito, mas ainda é possível ler.

Os livros de acabamento de luxo, capa dura em tecido, faziam a Print Screen parecer um borrão no olho. Como era possível trabalhar numa gráfica que não consegue chegar nesse nível de resultado? As lombadas com vincos perfeitos, a capa colorida em silk ou carimbo. Nem sabia como aquilo era feito. Não sou um gráfico com muita experiência, na maior parte do tempo fazia convites para aniversários de crianças e folhetos de pequenas lojas da região. Os detalhes não eram o forte do meu trabalho. Padaria Nosso Pão. O senhor queria isso escrito em dourado, com letras gordas e fundo preto numa placa de 3 metros de largura e 2 de altura. Letras gordas, ouvia isso todos os dias. Fiz como ele pediu, ficou satisfeito com sua placa funerária. Apenas essa lama no rio que virou assunto pelo mundo poderia ser mais vergonhosa que a placa. E no dia da entrega bateu no meu ombro por cima do monitor. Você é um artista. Sim, como Rubinho Jacobina previu em sua canção. Impossível fazer algo próximo daqueles livros na Print Screen.

Santos – deslize para atender. Não posso falar alto dentro biblioteca. Estou com duas obras de arte na mesa. Vou tentar um empréstimo para você chorar comigo. O Santiago não vai entender, esse tipo de trabalho não é para o nosso público. Vamos morrer escrevendo: Aniversário do Wellington. A ligação era um convite para uma cerveja na casa dele. Imaginei que alguém ligaria com proposta parecida. Não vai dar, quero ficar quieto, preciso voltar para a louça suja de casa, nos vemos amanhã. Antes de guardar o telefone no bolso, duas mensagens piscando. A primeira trazia um emoticon de sorriso seguido de um coração e a palavra Felicidades. A segunda. Tem presente pra você, passa aqui em casa. A primeira era de Kelly e tinha a assinatura da gráfica. A segunda era de Simone, uma cliente que imprimia um cartaz do cinema europeu e morava ao lado da gráfica.

Diante daqueles dois livros de acabamento incrível me lembrei que uma dia Santos me criticou por ficar mais tempo olhando para o livro fechado do que aberto. Minha leitura é mais ou menos como tomar banho. Não gosto tanto de tomar banho, mas gosto muito do resultado que ele proporciona. Logo o faço como rotina. Assim é com a leitura, aprecio muito do objeto e acabo por ler para que sua utilidade seja cumprida. É talvez um jeito de burlar a serventia dos objetos. Usufruir e transfruir ou sobrefruir a função original das coisas.

Quando se trabalha numa gráfica, mesmo que pequena, burlar é algo bem comum. Desde piratear softwares de edição de imagem até repaginar esboços, também chamados layouts, o que vários conhecidos chamam de inspiração na verdade é sugar a criatividade do colega. Isso fora a quantidade de imagens no formato PNG que conseguimos no google para fazer cartões de visitas, folhetos e, acredite, logotipos. Eu louvo a cultura do remix, o recortar e colar como religião estética. Por exemplo, existem sites de notícias ou de alguns assuntos específicos em texto são bloqueados para que apenas os assinante consigam ter acesso. Funciona assim. Ao carregar o site o texto pisca na tela e logo em seguida uma mensagem o encobre. A mensagem: conteúdo exclusivo para assinante do site. Descobri que se você clicar no botão que pausa o carregamento, em quase todos os navegadores representado por um xis, no exato momento em que o conteúdo pisca é possível ler todo o texto. É que o texto carrega primeiro que as imagens e que a mensagem de alerta.

inacabado.

(escrevi isso ouvindo o disco The four trees de Caspian)

No dia do leitor

Depois de uma conversa com minha mulher decidimos que este escrito era necessário. Tantas outras coisas deixei passar, e algumas ainda falho em ceder, esta – como diz a expressão da moda – não passará.

Mantenho desde 2014 uma página no facebook chamada: Tenho mais livros que amigos. Uma forma de dividir o que leio e o que penso valer a pena ler. Em meio a tantos blogs e vlogs sobre a literatura e seu principal objeto, a página não se enquadra exatamente no que o grande público aprecia como leitura. Naturalmente tem poucas curtidas e, apesar do nome, pouca popularidade no meio.

No dia 07 de janeiro de 2016, recebi um email de uma editora informando que nesta data se comemora o dia do leitor. Percorri vários sites e percebi uma repetição no estilo de publicação sobre este dia. Letras gordas (como diria um conhecido meu), brilhos, fotos de prateleiras, pequenas piadas. Feito um loop programado para mudar a cor e detalhes, de resto tudo da mesma forma. Quando as fotos mostravam pessoas, eram sempre brancas. Procurei criar alguma diferença na publicação da ‘Tenho mais amigos que livros’.

Digitei no google imagens: Leitor negro. Fui rolando a página até que desisti. Leitores de ebook na cor preta (o que me leva a crer que existe a opção branca), uma mulher mostrando a bíblia para uma criança, algumas poucas personalidades e mais nada. Não há nenhuma foto de pessoa negra lendo mediante esta pesquisa. Tentei então: Negro lendo. Surgiram quase 10 fotos, nenhuma com boa qualidade fotográfica para o meu gosto. … : Black Reading. Só então encontrei esta foto, dentre muitas de boa qualidade, que finalmente chamou minha atenção

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Parece que o leitor negro está no idioma inglês, Black People Reading Books: um festival de fotos incríveis e um desconforto na minha publicação. Uma simples pesquisa se transformou em reflexões que me acompanharam todo o dia, e seguem aqui comigo. (até uma conversa com minha mulher e a decisão de escrever a respeito) Quem são os leitores brasileiros? Porque é tão difícil encontrar fotos de negros brasileiros lendo? Estão do lado de fora da biblioteca? O que estão escrevendo? Ler é um privilégio?

Um dia depois outro episódio relevante pulou no meu olho.

Comecei a ler Cidade Aberto do escritor Teju Cole. Uma leitura detalhada que trata da visão de um nigeriano num frequente ciclo de descoberta e adaptação ao efêmero da cidade. (especificamente Nova Iorque – gosto de escrever assim) No livro ele cutuca cada vértebra da cidade, tudo atrai o olhar plástico e profundamente intelectual do personagem Julius. Passados alguns capítulos digitei, por curiosidade, Teju Cole no google imagens. O resultado foi este:

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Cuspe e fumaça

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Devo iniciar com profunda tristeza o estresse causado pelo arranjo de qualidade duvidosa das lâmpadas de natal que apavoram a praça da liberdade. A rua das selfies, talvez dos falsos sorrisos, e da prosa futurista que lamenta não ter novos modelos de luzes e focos para que mais fotografias sejam feitas.

De um lado, parece que o mundo redescobre Thomas Edison e a lei que governa a gravitação planetária. Mas tentemos nos aproximar com bom senso de uma obra narrativa, patrocinada pela Cemig, que projeta na casa do governador simulações de fogos de artifício e mensagens natalinas interpretadas pelo personagem da coca-cola.

Os personagens migram, enquanto acompanho o estouro falso que soa em caixas de som no volume 11, uma garotinha, cinco anos imagino, segura a mão do pai e olha para o chão. O pai segue hipnotizado pela tela e ela pela enorme lâmpada presa ao chão protegida por uma grade. Por afinidade sigo na fantasia dela, a pequena cospe no vidro da lâmpada que levanta um minúsculo vapor. Ao lado um garoto, imagino a mesma idade, desperta um sorrisinho e dispara sua saliva também, erra o vidro. Ela acerta de novo, depois de mais duas tentativas ele acerta também. Estas entidades encontram na saliva a possibilidade de produzir seus próprios fogos, ao contrário dos adultos, muitíssimos mais reais.

Enquanto a dupla do cuspe manifesta sua mágica, volto o olhar para a tela e para os adultos concentrados nas paredes iluminadas. Em qualquer caso, esta ação dos pequenos provocaria um mínimo fascínio de alguém, mas a tela é grande e o som é alto. Agora já são 6 miúdos a cuspir, revezando os turnos e a levantar névoa. Confesso, me deu uma vontade danada de cuspir também. Mas isso implicaria numa explicação perdida caso algum adulto me visse.

A tela se apagou, muitos bateram palmas para a parede escura e em seguida puxaram as crianças de volta para as lampadinhas e brinquedos bobos vendidos por valores espertos. Definitivamente perdido voltei para casa consolado pela cena. E garanto a todos vocês: a melhor atração do circuito cultural praça da liberdade foi o bando do cuspe. Parece que Wilde estava certo e porque não terminar com uma frase de efeito: Viver é a coisa mais rara do mundo. A maior parte das pessoas existe e nada mais.

(escrevi ouvindo Geni e o Zepelim)

Como estão as coisas?

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Chega um momento em que as pessoas já não pensam em mudar nada. Ficam quietas, só isso. Nesse momento não adianta dar mancada, presente, puxar conversa, cantar no ouvido – nada adianta. Não haverá mudança. Quietude alguns dizem – eu duvido – tem que ser mais que isso. E não se trata de um fenômeno gradativo, de repente pausa. A pausa não é importante? Claro que sim, mas essa é daquelas bem paradinhas – dá até medo. Dessas que quando sai alguma palavra é direcionada a outra pessoa, sabe?

Dá pra saber como estão as coisas quando não nos perguntam: Como estão as coisas? Pensamos que o outro tem interesse em nossas coisas todas. Não é verdade. Muita coisa fica de fora e é melhor se contentar com sua própria opinião. Viver é mais que isso não é? Aliás, acabei de pensar num termo: áudio-ajuda (rindo pelos cantos) no meio de um escrito desses consigo sorrir. – mais que isso não é? Dar carinho a tudo o que for possível, principalmente quando não for retribuído ou quando ninguém estiver olhando. Carinho com a vida, não que ela mereça.

Áudio-ajuda, comemos chocolate em silêncio no meio da rua. Deitamos no chão do apartamento e descobrimos que os vizinhos de baixo estão fazendo amor. Ouvimos um estrondo, abrimos a janela e vemos que uma viatura policial avançou o semáforo sem emergência e bateu de frente com outra viatura.

Chega um momento que ao escutar uma conversa no metrô sobre um marido que trai sua mulher e fica tudo muito triste. Pensamos que, como sociedade, evoluímos pouco nessa questão também nessa questão. Traz comigo seu abraço, recado – põe aqui. O moço da esquina nos pergunta como estão as coisas. Interessa nos interessar. Escrever é mais que isso. Hoje é sexta-feira, amanhã por mim podia ser segunda. O calor dessa cidade não evapora nossas lágrimas. Mas amanhã é sábado.