Perdiz

Engano do dia, sem nome, filho de um operador de máquina e de uma costureira, nasceu sem muito saber até quando. Invisível aos amigos, descrente de amor, apesar de casado, além dos livros, acabou se arranjando como segurança da biblioteca pública de Belo Horizonte.

Sem time de preferência, ouvia os comentários atrás do balcão sobre raposa, galo e coelho. Uma edição de bolso na mão, guarnição de sua humildade, bilhete para qualquer terra. Infeliz como um gândula em zero a zero, servia atenção e bom dias. A elegância do uniforme passado a ferro às quatro da manhã.

Fascinado pelos ternos descidos de carros com motoristas, sofria pensando ter nascido para isso, a doçura possível dos motoristas e ternos. Resistia as lembranças do lodo nas paredes de casa, aos móveis doados pelo vizinho, incluindo uma cadeira com três pés e o desenho sem moldura. Aquele terno com motorista não tinha ciência sobre isso, nem mesmo a corda da descarga feita de restos do varal. Maldito terno, carro desgraçado.  Podia ver durante o almoço a parte alta da cidade, aguçava os lamentos e os sonhos. Como nos livros, a parte alta devia ter camas com lençol branco, bordado talvez, tapetes coloridos, tecidos finos nas paredes, lustres gigantes, cadeiras com quatro pés, grama no quintal, quem sabe até neve. Fantasiava conversas em voz baixa com mulheres e homens inteligentes, perfume de artista, banheiros com descarga de shopping, amigos invejáveis.

A mulher o recebia sorrindo. Fiz farofa com cenoura como você gosta. Imaginava camarões e ostras, sem nunca ter provado ambos. Garfo e faca em mãos, um encontrado num dos armários da biblioteca o outro esquecido pelo garçom numa festa de 15 anos. Esse frango parece perdiz. Você já comeu perdiz? Não, mas tem um livro que fala que a perdiz tem a carne muito próxima do frango em alguns pratos. Vou falar com Maria depois, outro dia ela reclamou que meu bife estava duro. Essas palavras o lembravam que não tinha muita coisa. Se achava feio, não era notado e ao mesmo tempo sabia ter nascido para ser bonito, para ser desejado.

Inacabado.

(escrevi ouvindo Siba)

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