Print Screen

Primeira coisa: este botão é o da partida, aqui estão as marchas (são quatro), não tem embreagem – na verdade é semiautomática, só precisa voltar o acelerador e pisar forte neste pedal – se passar acelerando vai ter que voltar aqui em breve para manutenção, o freio da frente no guidão e o de trás no pedal. Não posso te ajudar com muito mais. A loja parada para me ver ligando a moto, só aconteceu depois que saí para a rua. Veio a lembrança de um motoboy numa esquina ajustando os retrovisores, fiz igual. No reflexo todos os vendedores da loja de braços cruzados olhando o possível vexame da primeira moto e da primeira vez que dei a partida numa 50 cilindradas.

Cheguei em casa errei a direção e descobri que um veículo motorizado, seja de qual potência for, é uma máguina do tempo. Precisava aprender a pilotar, todas as noites foram aulas solitárias. Enquanto colava adesivos onde conseguia, imaginava uma forma de ouvir música na moto. Brinquedo-tempo em dois meses.

Não muito antes de tremer pelo centro da cidade, procurei me acalmar na travessia da avenida Amazonas com habilidosos imbecis automotivos. Freio da frente para diminuir a velocidade, o de trás ajuda depois. Estava no centro, pela primeira vez cheguei ao centro pelo caminho escolhido por mim, pela minha única direção. Toda vez que olhava pelo retrovisor, me perguntava como faria para olhar para frente e para eles ao mesmo tempo. Poucos quarteirões de onde fui assaltado buzinei como alerta para um senhor que vinha depressa demais.

Na esquina da avenida Afonso Pena com a rua da Bahia uma caneta caiu.(Pilot Super Grip 1.0 cor azul)Não sei de quem caiu. Brilhou no céu das árvores neste instante. Apertei os dois freios da e as buzinas soaram. Joguei na gola da camisa – fone de ouvido pendurado – acelerei, a fazer cócegas até a praça da liberdade.

Cartão da biblioteca pública, pode guardar sua mochila no armário por favor? Na volta do armário pedi um pedaço de papel para testar a caneta, um folheto de produtos para maquiagem, imitei a palavra: curvex. Escrever é sempre uma estreia. Funciona. Sim funciona, acabei de achar na rua. Dia de sorte então. Sorrisos. O segurança da biblioteca estava sempre lendo alguma coisa que não era livro, folheto de farmácia, bula, programas de lançamentos, livro não. Ao subir a escada vi ele escrevendo no mesmo folheto onde testei a caneta.

A fala, passos e memória, soltos e muito bem organizados a espera dos olhos, dos dedos – era folga do trabalho. Caneta no bolso da calça, certeza deslizando o indicador por cima. No outro rumo, acompanhando a prateleira de mais lidos do mês de junho, estão as mesas para leitura, quase todas com anotações no tampo de madeira. Entalhes gravados em momentos mínimos, diante de todo aquele estouro de livros bem organizados um título escrito com Bic na madeira: a descoberta do terceiro olho, Vera Stanley Alder. Eu olhava com atenção na esperança de ver algum prodígio poético na combinação das letrinhas. Essa inocência hoje amanhece um sorriso. Mas por trás da ansiosa inquietação havia algo grave e, por trás dessa gravidade, algo dramático que é menos fácil de identificar.

Entre uma leitura e outra encostava na janela, confundia o ruído da rua com o passar de páginas. Debaixo do vão da biblioteca, quatro pés, dois descalços e dois de pantufas sujas: tenho muito medo de passar por aquele caminho. Hoje, Deus vai me ajudar para que nada aconteça. Pega o saco debaixo do papelão pra mim. A ponta da caneta batendo na madeira, mancha sozinha e o escrito: medo do caminho em que nada vai acontecer. Minha contribuição para o poema coletivo. Tentei ouvir um pouco mais, o ônibus impediu, se foram os quatro pés.

Fone. Gostava de ouvir Tim Hecker enquanto andava pela biblioteca. Eu diminuia o volume quando via alguém se aproximava, para poder ouvir alguma conversa, e não era muito difícil isso acontecer – ao contrário do que se pensa, se fala bastante em bibliotecas. Naquela época eu passava de um livro para outro, sem abrir, procurando o título ou a lombada perfeita para o dia. Uma fuga sonora de passos, letras, música e algumas vozes no fundo. Aquela hora passando e eu sem livro nas mãos. Precisa de ajuda para algum título? Não, estou pesquisando sozinho, obrigado.

Era quase hora de ir para o trabalho, meu relógio biológico prevenia atrasos, mas hoje era folga por conta do meu aniversário. Trabalhava numa gráfica pequena que também vendia artigos de escritório, o básico, não daria para finalizar uma lista de material escolar de uma criança. O dono me deu escolha: uma cerveja após o trabalho com os outros dois funcionários por conta dele ou folga? E folga significava andar de moto, biblioteca, quem sabe uma visita a um antigo amigo. Os funcionários eram Santos e Kelly. Santos um arte finalista que devia ter quase quarenta anos, quase não saía de casa, adorava beber chá e ver os jogos da Associação Nacional de Basquete dos Estados Unidos, como ele mesmo dizia: ene-bê-á. Kelly era nossa supervisora, a pessoa mais nova da Gráfica Print Screen, deixou o RG cair no chão outro dia, nascida em 1991. Tinha um namorado com quem vivia terminando e frequentava as tumultuadas e hypes sobrelojas do edifício Maletta. Além deles e eu, o dono Santiago, mais ou menos 60 e poucos anos, sotaque argentino, tipógrafo dos anos 70 tentando sobreviver nos tempos do computador.

Sentei numa das mesas com dois livros e resolvi abrir o primeiro. Como estou abandonado agora que você voltou para as ruas. E o segundo. O ônibus geme suas janelas. A caneta na madeira: Como estou abandonado nesse ônibus, da janela as ruas gemem teu nome. Faço um xis sobre o escrito, mas ainda é possível ler.

Os livros de acabamento de luxo, capa dura em tecido, faziam a Print Screen parecer um borrão no olho. Como era possível trabalhar numa gráfica que não consegue chegar nesse nível de resultado? As lombadas com vincos perfeitos, a capa colorida em silk ou carimbo. Nem sabia como aquilo era feito. Não sou um gráfico com muita experiência, na maior parte do tempo fazia convites para aniversários de crianças e folhetos de pequenas lojas da região. Os detalhes não eram o forte do meu trabalho. Padaria Nosso Pão. O senhor queria isso escrito em dourado, com letras gordas e fundo preto numa placa de 3 metros de largura e 2 de altura. Letras gordas, ouvia isso todos os dias. Fiz como ele pediu, ficou satisfeito com sua placa funerária. Apenas essa lama no rio que virou assunto pelo mundo poderia ser mais vergonhosa que a placa. E no dia da entrega bateu no meu ombro por cima do monitor. Você é um artista. Sim, como Rubinho Jacobina previu em sua canção. Impossível fazer algo próximo daqueles livros na Print Screen.

Santos – deslize para atender. Não posso falar alto dentro biblioteca. Estou com duas obras de arte na mesa. Vou tentar um empréstimo para você chorar comigo. O Santiago não vai entender, esse tipo de trabalho não é para o nosso público. Vamos morrer escrevendo: Aniversário do Wellington. A ligação era um convite para uma cerveja na casa dele. Imaginei que alguém ligaria com proposta parecida. Não vai dar, quero ficar quieto, preciso voltar para a louça suja de casa, nos vemos amanhã. Antes de guardar o telefone no bolso, duas mensagens piscando. A primeira trazia um emoticon de sorriso seguido de um coração e a palavra Felicidades. A segunda. Tem presente pra você, passa aqui em casa. A primeira era de Kelly e tinha a assinatura da gráfica. A segunda era de Simone, uma cliente que imprimia um cartaz do cinema europeu e morava ao lado da gráfica.

Diante daqueles dois livros de acabamento incrível me lembrei que uma dia Santos me criticou por ficar mais tempo olhando para o livro fechado do que aberto. Minha leitura é mais ou menos como tomar banho. Não gosto tanto de tomar banho, mas gosto muito do resultado que ele proporciona. Logo o faço como rotina. Assim é com a leitura, aprecio muito do objeto e acabo por ler para que sua utilidade seja cumprida. É talvez um jeito de burlar a serventia dos objetos. Usufruir e transfruir ou sobrefruir a função original das coisas.

Quando se trabalha numa gráfica, mesmo que pequena, burlar é algo bem comum. Desde piratear softwares de edição de imagem até repaginar esboços, também chamados layouts, o que vários conhecidos chamam de inspiração na verdade é sugar a criatividade do colega. Isso fora a quantidade de imagens no formato PNG que conseguimos no google para fazer cartões de visitas, folhetos e, acredite, logotipos. Eu louvo a cultura do remix, o recortar e colar como religião estética. Por exemplo, existem sites de notícias ou de alguns assuntos específicos em texto são bloqueados para que apenas os assinante consigam ter acesso. Funciona assim. Ao carregar o site o texto pisca na tela e logo em seguida uma mensagem o encobre. A mensagem: conteúdo exclusivo para assinante do site. Descobri que se você clicar no botão que pausa o carregamento, em quase todos os navegadores representado por um xis, no exato momento em que o conteúdo pisca é possível ler todo o texto. É que o texto carrega primeiro que as imagens e que a mensagem de alerta.

inacabado.

(escrevi isso ouvindo o disco The four trees de Caspian)

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