Cuspe e fumaça

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Devo iniciar com profunda tristeza o estresse causado pelo arranjo de qualidade duvidosa das lâmpadas de natal que apavoram a praça da liberdade. A rua das selfies, talvez dos falsos sorrisos, e da prosa futurista que lamenta não ter novos modelos de luzes e focos para que mais fotografias sejam feitas.

De um lado, parece que o mundo redescobre Thomas Edison e a lei que governa a gravitação planetária. Mas tentemos nos aproximar com bom senso de uma obra narrativa, patrocinada pela Cemig, que projeta na casa do governador simulações de fogos de artifício e mensagens natalinas interpretadas pelo personagem da coca-cola.

Os personagens migram, enquanto acompanho o estouro falso que soa em caixas de som no volume 11, uma garotinha, cinco anos imagino, segura a mão do pai e olha para o chão. O pai segue hipnotizado pela tela e ela pela enorme lâmpada presa ao chão protegida por uma grade. Por afinidade sigo na fantasia dela, a pequena cospe no vidro da lâmpada que levanta um minúsculo vapor. Ao lado um garoto, imagino a mesma idade, desperta um sorrisinho e dispara sua saliva também, erra o vidro. Ela acerta de novo, depois de mais duas tentativas ele acerta também. Estas entidades encontram na saliva a possibilidade de produzir seus próprios fogos, ao contrário dos adultos, muitíssimos mais reais.

Enquanto a dupla do cuspe manifesta sua mágica, volto o olhar para a tela e para os adultos concentrados nas paredes iluminadas. Em qualquer caso, esta ação dos pequenos provocaria um mínimo fascínio de alguém, mas a tela é grande e o som é alto. Agora já são 6 miúdos a cuspir, revezando os turnos e a levantar névoa. Confesso, me deu uma vontade danada de cuspir também. Mas isso implicaria numa explicação perdida caso algum adulto me visse.

A tela se apagou, muitos bateram palmas para a parede escura e em seguida puxaram as crianças de volta para as lampadinhas e brinquedos bobos vendidos por valores espertos. Definitivamente perdido voltei para casa consolado pela cena. E garanto a todos vocês: a melhor atração do circuito cultural praça da liberdade foi o bando do cuspe. Parece que Wilde estava certo e porque não terminar com uma frase de efeito: Viver é a coisa mais rara do mundo. A maior parte das pessoas existe e nada mais.

(escrevi ouvindo Geni e o Zepelim)

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